Dilma e Serra vistos da academia

Ontem participei de um congresso de filosofia, e nas conversas nos intervalos é arraigada a visão que

(1) o Brasil vive um momento de expansão das áreas de ciência, tecnologia e ensino
(2) esta expansão continuará se Dilma vencer, mas estaria ameaçada por um governo Serra

Mesmo os mais próximos de Serra admitem isso. O máximo que eles conseguiram dizer é que a atual taxa de ampliação da pesquisa e ensino não se manterá. O que é verdade, pois a atual taxa foi facilitada pela política de destruição do ensino e da pesquisa promovida pelo PSDB de FH. Mas ninguém acredita que um governo Serra promoveria a pesquisa e o ensino tal como faria um governo Dilma. 

Falácia intensional

O erro de tratar as descrições ou nomes diferentes do mesmo objeto como equivalentes, mesmo nos contextos em que as diferenças entre elas importam. Relatar as crenças ou afirmações ou alegações sobre a necessidade ou possibilidade de alguém podem ser tais contextos. Nestes contextos, substituir uma descrição por uma outra que se refere ao mesmo objeto não é válido e pode transformar uma sentença verdadeira em uma falsa.
Exemplo:
Michelle disse que quer encontrar seu novo vizinho Stalnaker esta noite. Mas eu sei que Stalnaker é um espião da Coreia do Norte, então Michelle disse que quer conhecer um espião da Coreia do Norte esta noite.
Michelle não disse tal coisa. O pensador relapso presumiu ilegitimamente que o que é verdadeiro de uma pessoa sob uma descrição permanecerá verdadeiro quando dito da mesma pessoa sob uma segunda descrição, mesmo neste contexto de citação indireta. O que era verdadeiro da pessoa quando descrita como “seu novo vizinho Stalnaker”; é que a Michelle disse que quer encontrá-lo, mas não era legítimo para mim presumir que isso é verdade da mesma pessoa quando ele é descrita como “um espião para a Coreia do Norte”.
          Contextos extensionais são aqueles em que é legítimo substituir igual por igual, sem se preocupar. Mas qualquer contexto em que esta substituição de termos correferentes é ilegítima é chamado de um contexto intensional. Contextos intensionais são produzidos através de citação, modalidade e intencionalidade (atitudes proposicionais). Intencionalidade é o fracasso da extensionalidade, daí o nome “falácia intensional”.

(Trecho do verbete “Fallacy” da Internet encyclopedia of philosophy, de autoria de Bradley Dowden, revisado pela última vez em 2010-1-31, em http://www.iep.utm.edu/fallacy/#Intensional, visitado em 2010-5-28, traduzido por César S. dos Santos.)

Agamben sobre o conceito de democracia

Eis alguns trechos de um artigo do filósofo italiano Giorgio Agamben publicado na última edição da revista Theory & event. A tradução é ligeira, então não corra riscos citando-a em trabalhos acadêmicos e discussões mais sérias:

[...] A partir da perspectiva que nos interessa, é a distinção e a articulação entre soberania e governo, que é a base do pensamento político de Rousseau, que é determinante. [...]

Se hoje testemunhamos a dominação esmagadora do governo e da economia sobre a soberania popular que tem sido progressivamente esvaziado de qualquer sentido, pode ser que as democracias ocidentais estão pagando o preço de um legado filosófico que assumiram sem reservas. O equívoco que consistente em conceber o governo como um simples poder executivo é um dos erros mais preocupantes, com consequências na história da política ocidental. Ele conseguiu garantir que o reflexo político da modernidade se perdeu atrás de abstrações vazias, como o Direito, a vontade geral e da soberania popular, deixando sem resposta o problema é que a partir de qualquer ponto de vista decisivo: o do governo e sua articulação com o soberano . [...] 

O sistema político ocidental resulta da costura de dois elementos heterogêneos, que legitimam um ao outro e que dão mútua consistência um ao outro: a racionalidade político-jurídica e uma racionalidade econômico-governamental, uma "forma de constituição" e uma "forma de governo". Porque é que a politeia está travada nesta ambiguidade? O que confere ao soberano (o kyrion) o poder de assegurar e garantir a sua união legítima? Não é uma questão de uma ficção destinada a ocultar o fato de que o centro da máquina está vazio, que entre os dois elementos e as duas racionalidades não existe articulação possível? E que é da sua desarticulação que é uma questão de fazer o que emerge ingovernável, que é ao mesmo tempo a fonte eo ponto de fuga de toda a política? 

É provável que enquanto o pensamento não resolver enfrentar esse nó e seus anfibologia, toda discussão sobre a democracia - como uma forma de constituição e como técnica de governo - arrisca cair em conversa fiada.

O título do artigo é "Nota introdutória sobre o conceito de democracia" [Introdutory note on the concept of democracy], e o link para acesso via portal de periódicos da Capes é este.  

Serra promove baixaria na Internet, diz Marcelo Branco

Do Sul21:

Correio do Povo fez segunda matéria envolvendo o tema da Internet e as eleições. O jornal reproduziu a crítica do coordenador de redes sociais da campanha da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, Marcelo Branco. Ele acusou ontem o pré-candidato tucano, José Serra, de promover "baixaria" na Internet. Ele valoriza o papel das redes sociais nesta eleição e ironiza a presença de Serra na rede. "Qual é o espaço na Internet que a campanha do Serra tem ocupado até agora? Um site que chama o presidente Lula de mentiroso com nariz de Pinóquio, acusações levianas todo dia e uma rede de pessoas pagas para fazer campanha negativa.

Ala pró-liberdades deixa Partido da Arca de Noé

Com o acolhimendo da criacionista Marina Silva, o PV deixou em segundo (terceiro? quarto?) plano bandeiras históricas, como a defesa do direito do aborto e do casamento gay, e passou a ser mais um partido pró-, quiçá, preservacionismo mais criacionismo, o que nos dá algo como um Partido da Arca de Noé, PANo. 

Por conta disso, verdes históricos abandonaram a legenda. Eles apoiam a candidatura de Dilma Rousseff, e buscam assinaturas para fundar o Partido da Liberdade. 

Proliferação nuclear, estilo Israel

Documentos liberados após décadas de sigilo revelam que, nos anos 1970s, Israel estava empenhado em vender armas nucleares ao regime racista da África do Sul. Além disso, documentos da embaixada dos EUA no Irã capturados por estudantes, após a revolução de 1979 que derrubou o Xá, revelaram o interesse deste em comprar os mesmos produtos. 

Isto sim é proliferação nuclear. 

No Guardian

O punho cerrado de Obama

No discurso de posse, com W. Bush e família saindo de cena rápido mas fininho, Obama disse algo lindo, sobre a relação que promoveria com os países em conflito com os EUA, como o Irã. Não lembro as palavras exatas, mas ele disse algo como:
Se vocês abrirem seus punhos, nós lhes estenderemos a mão. 

Eu me emocionei. É tudo o que eu gostaria de ter ouvido um presidente dos EUA falar, naquele momento. Senti esperança de paz. 

Agora, Obama cerra o punho. Os céticos já diziam que a coisa seria assim, e eles têm razão, infelizmente. Não há diferença entre Obama e W. Bush para nós que não votamos para presidente dos EUA. 

O Brasil e outros países buscam soluções pelo diálogo, e fomos todos esbofeteados pela hybris estadunidense. Isso não quer dizer que perdemos, pois o perdedor claro é Obama, pois ele simplesmente repete a fórmula que tirou a credibilidade de W. Bush e Blair, além dos EUA e da Inglaterra. Não se pode dizer nem mesmo que Obama e os EUA ganham por ter a decisão final, no caso a opção pela guerra, dado que as sanções darão nisso. Não há vitória aqui, pois este é o beco sem saída no qual W. Bush enfiou os EUA, e do qual os estadunidenses achavam que Obama os tiraria. É um beco sem saída econômico, dados os custos trilionários da guerra. É um beco sem saída político, dada a insatisfação popular. E é um beco sem saída diplomático, por razões mais do que óbvias.